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Como as viagens aéreas impactam a crise climática?

Poder voar, confortavelmente, num equipamento que pesa toneladas, me fascina. Quando criança, gostava de levar meu pai ao aeroporto. Não só para me despedir, porque ele chegava a ficar meses fora de casa à trabalho, mas também empolgada e curiosa para admirar os aviões decolando e pousando.

Fiz minha primeira viagem aos 21 anos. Era estagiária de uma empresa e participaria de um evento científico em outro estado. Naquela noite, quando o avião começou a taxiar, com a cabine escura, os pontos de luz azul que marcavam a pista absorveram meus pensamentos, e concentrada, fiquei admirando pela janela cada detalhe daquele voo.

Desde então, perdi a conta das viagens, essencialmente originadas por trabalho. Já dei a volta ao mundo, literalmente, em uma destas missões técnicas. Mas apesar das centenas de milhares de milhas acumuladas, o fascínio de estar no avião persiste e ainda me encanta sentar na janela.

Numa destas viagens, a visão que tive ainda na pista era de um engarrafamento. O setor aéreo cresceu exponencialmente e o desejo e sonho de voar ficou mais acessível a população, de certo modo devido a subsídios a cadeia de aviação. Desde meu primeiro voo, em 1990, o setor cresceu 400%.

Em 2017, segundo a agência internacional de aviação, foram transportados 4,1 bilhões de passageiros. Numa primeira reação, poder-se-ia pensar que mais da metade da população mundial usou avião neste ano, mas não. Número de passageiros não quer dizer número de pessoas transportadas. Uma pessoa pode ser contabilizada como múltiplo passageiro, inclusive num mesmo dia, em função de escalas e/ou voos de ida e volta, por exemplo. De fato, se estima que 80% da população mundial jamais colocou os pés num avião.

Faço parte dos privilegiados com acesso a esse modal. E como uma viajante frequente.

O setor aéreo representa apenas 2% das emissões globais. Mas, por ser um relativo pequeno número de pessoas responsáveis por estas emissões, para as pessoas que costumam viajar de avião, uma das ações mais importantes que podem fazer para contribuir para a emergência climática é reduzir viagens aéreas. Considerando a previsão que o setor terá amplo crescimento e que tecnologias menos poluentes não estão disponíveis, mais importante ainda é a medida.

Foi chocante perceber que ações que já vinha praticando para lidar com a emergência climática como adoção de dieta a base de plantas, reusar e reciclar têm impacto muito menos significativo que a redução de viagens aéreas, especialmente para os viajantes frequentes, que é o meu caso.

Gráfico – Potencial de Redução de Emissões de CO2/ pessoa/ ano

(média em país desenvolvido)(2)

Fonte: Elaborado a partir de pesquisa de Wynes, S.; Kimberly A N. (2017)

Num país em desenvolvimento como no Brasil, a situação não é tão distinta, dependendo do estilo de vida, conforme simulação que fiz no site www.climateneutralnow.com. Mesmo considerando o uso intensivo de deslocamento por carro à gasolina e adoção de dieta à base de carnes, as emissões aéreas podem ser muito mais expressivas.

Eu me recordo como hoje, o quanto envergonhada fiquei, ao ouvir um parceiro orgulhosamente compartilhando que havia 15 anos que não viajava nem a trabalho, ou a lazer, comprometido em lidar com a gravidade da situação climática que passamos. Eu, em alguns meses depois, estaria na Cidade do México à trabalho e antes de retornar ao Rio de Janeiro, Brasil, onde moro, ainda faria uma parada na Costa Rica para férias.

Depois deste incidente em dezembro de 2016, comecei a aprofundar reflexões sobre minha própria contribuição de emissões decorrentes de viagens aéreas.

Em 2010, vendi meu carro, e foi uma decisão difícil. Mas nada se comparou em me deparar com essa nova mudança. Mexeu com um desejo enraizado de continuar desbravando o mundo, e tocou questões profundas que desconhecia, como um senso de auto importância e imagem por estar frequentemente em viagens de negócios pelo mundo, com a crença de estar “salvando” o mundo.

Não é porque estou dedicada em lidar com a grave crise planetária que nos encontramos, que eu terei um “status privilegiado” ou uma “licença especial” para consumir em excesso ou ter um estilo de vida ou práticas de trabalho insustentáveis.

No ano seguinte, eu evitei as emissões de uma longa viagem internacional, participando remotamente em um workshop – que funcionou muito bem por sinal. E viajei localmente em férias, usando transporte público: ônibus e barca. Mas, ainda assim, andei de avião de forma significativa à trabalho naquele ano. Desde então, no entanto, assumi compromisso comigo mesma de reduzir ao máximo as viagens e não voar.

E tem sido uma nova aventura! O aperfeiçoamento da qualidade de vídeo conferência tem me ajudado a fazer a transição para o mundo de reuniões virtuais. Em 2018, declinei convites para falar em eventos que não aceitassem minha participação por vídeo ou teleconferência e, num evento em particular, ao invés de voar, eu me desloquei de ônibus.

Conhecer outras pessoas que estão adotando esse estilo de vida e ouvir suas experiências, tem sido muito gratificante e estão me ajudando a seguir neste propósito. Como por exemplo: Peter Kalmus, cientista da Nasa e professor na Universidade da California, Los Angeles, que criou um movimento global para apoiar pesquisadores e pessoas comuns a não viajar, depois que se deu conta que ele mesmo tinha uma pegada de carbono insustentável especialmente devido as suas viagens à trabalho; Maja Rosén, cidadã sueca que criou o movimento “Permanecemos na terra” com um logotipo de pinguim, a única ave que não voa, cuja campanha agora está presente em vários países; o Tyndall Centre for Climate Research, uma rede formada por 4 universidades que mobilizam pesquisadores para minimizar e evitar o uso de avião e a professora Kimberly Nicholas da universidade de Lund na Suécia que mapeou as principais ações que podemos ter impacto e também está dedicada em reduzir seus deslocamentos aéreos. Mas a situação que mais me tocou foi Greta Thumberg, a estudante e ativista sueca de 16 anos. Para participar das reuniões internacionais sobre o clima nos EUA, ela escolheu cruzar o Atlântico de carona num veleiro, por 15 dias, abrindo mão do conforto de um voo.

Mas, por favor, não se sintam pressionados a fazer este caminho desta forma. Mudar é realmente complexo, especialmente quando tocamos em algo tão prazeroso e desejado como voar. Meu objetivo aqui é apenas compartilhar como tem sido minha experiência e informar que há um preço e um valor dessa prática.

Quando achar que chegou o momento e quiser começar a reduzir suas viagens, deixo abaixo algumas sugestões de movimentos que me inspiraram.

Mestre em Ciências em Engenharia Urbana e Ambiental pela PUC-Rio e Universidade Técnica de Braunschweig, MBA Executivo na COPPEAD-UFRJ, especialista em P&D pela COPPE-UFRJ, Engenheira Química pela UFRJ, além de cursos de liderança em processos de transformação pessoal, social e cultural.

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