Como ganhar dinheiro no mercado financeiro e ser indutor de prosperidade? Parte 2

 

Parte 2: Busca por respostas sobre investimentos sustentáveis

Sozinha não posso mudar o mundo, mas posso lançar uma pedra e criar um fluxo de ondulações – autor desconhecido

Depois que tomei a decisão de desinvestir (leia a Parte 1 desta série), a pergunta que tenho aprofundado é: e onde aplicar? Como posso fazer diferente?

Gostaria que meu recurso fosse utilizado em investimentos para promover prosperidade, para promover saúde, bem-estar. Investir para mudar o mundo. Construção de infraestrutura do século XXI (prédios ecoeficientes, energia renovável por exemplo), estímulo de produção de agricultura agroecológica, alimentação sustentável. Aliás, como um investimento poderia não ter esses propósitos?

Como as instituições financeiras respondem a esta indagação?

Aprofundei então diálogo com três instituições onde tenho economias e me surpreendi com a falta de transparência. Meus recursos ficam numa caixa preta e não tenho clareza do que as instituições fazem com ele, como fazem e para que fazem. Exceto se analisar e criar uma carteira com ações de empresas que fazem parte de índices como ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial, ICO2 – Índice de Carbono Eficiente, IGC – Índice de Governança Corporativa na Bovespa, não tenho informações claras no impacto de meus recursos.

Para continuar explorando o tema, especialmente em como os novos players, empreendedores e empresas de fintech estão sendo indutores de desenvolvimento sustentável, participei de um dos dias do SmartInvest 2020. O evento se posiciona como o “maior evento de investimentos no Rio de Janeiro” para uma “Nova Era da Economia”.

De fato, foi um evento de grande proporção. Notadamente frequentado por homens e em sua expressiva maioria, brancos.

O que a ausência de mulheres num evento da “Nova Era da Economia” pode indicar?

Do dia que escolhi, todos os panelistas e moderadores foram homens. Achei curioso o tema do evento centrado na “nova era da economia”, mas no velho estilo #AllMalePanel. Justamente num momento onde as diversidades de perspectivas, de visões e de tipos se faz cada vez mais importante para conseguirmos melhor entender todas as nuances e dar conta de temas tão complexos como investimentos em uma nova era econômica. A não presença de mulheres nos debates, junto com os homens, não estaria simplesmente perpetuando padrões de desenvolvimentos passados que não nos têm levado a avanços econômicos sustentados? 

Na conversa que tive em vários stands, desde seguradora a fintechs, sobre como poderia ter acesso detalhado a alocação de recursos pelas instituições, as respostas reforçaram o entendimento que tinha anteriormente: falta transparência e abertura de dados por parte dos bancos.

Interessante que abertura de dados foi justamente um dos focos discutidos no evento. Confesso que até aquele momento, não tinha conhecimento sobre o “Open Banking”.

Open Banking: são dados abertos de bancos ou dos clientes?

Em resumo, é o novo sistema onde clientes autorizarão compartilhamento de suas informações com outros bancos e empresas. Uma plataforma que permite a integração das chamadas interface de programação de aplicativos (API, na sigla em inglês) para que haja compartilhamento de dados dos clientes, com autorização prévia deles, com a expectativa de aumentar a concorrência no setor e por consequência a qualidade de serviços aos clientes e melhores preços. Da conveniência do nosso celular, poderemos acessar aplicativos que mostram melhores condições de conseguir hipoteca ou empréstimos, análise de nossas contas domésticas, dicas de economias e metas financeiras, além de permitir gerenciar contas em bancos distintos numa única plataforma.

Mas me surpreendi com a rapidez com que o Brasil está regulamentando sua implantação. Iniciada consulta pública em dezembro de 2019, no dia 31 de janeiro já estava concluída. Implantada no Reino Unido desde 2018, onde há críticas e questionamentos sobre o real benefício da plataforma e para quem realmente servirá, é no mínimo curioso a velocidade de implantação do modelo no Brasil. Até porque o escopo de compartilhamento de dados e serviços é ainda mais abrangente, se comparado a implantação em outros países. Informação esta relatada em próprio comunicado do Banco Central.

Para mim, a denominação “Open Banking” parece melhor refletida como “Open Client”. Cliente este que decide abrir seus dados a várias outras organizações. Mas o banco permanece funcionando como aqueles restaurantes antigos que abrem o balcão para atendimento do cliente, mas na cozinha só pessoas autorizadas têm acesso. O coração da empresa permanece na caixa preta, sem claramente informar onde, como e com qual objetivo se aplicam os recursos. É o “Closed Banking”.

Foto de MILKOVÍ disponível em Unsplash
Dissonância: de um analista no Rio de Janeiro a Universidade de Harvard

Uma das pessoas com quem conversei, expressou também sua preocupação com questões ambientais, indicando frustração quando a organização financeira para qual trabalha imprime documentos de forma indiscriminada, gastando papel de forma desnecessária. Compreendi a angústia e fiquei ainda mais curiosa em saber sobre a política de investimentos da organização.

– Consideram os efeitos do investimento em relação a desmatamento ou poluição ambiental ou agravamento de desigualdade? -Indaguei.

 Um silêncio desconfortável se seguiu.

Essa dissonância, por um lado uma preocupação genuína com a questão ambiental e por outro uma atitude que vai contrária e alavanca o agravamento ambiental, me lembrou um caso com a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Enquanto escrevo este texto, estão sendo feitas mobilizações para que a universidade faça o desinvestimento de combustíveis fósseis. A universidade declara que já vem fazendo sua parte na área ambiental, através de pesquisas para lidar com o problema, educação, desenvolvimento de novas formas de energia e o compromisso de ser um campus livre de emissões de carbono até 2050. No entanto, seu fundo patrimonial endowment continua tendo ativos de empresas que exploram combustíveis fósseis.

Para quem, com sua participação acionista de 0,000008% numa empresa no Brasil, provocou um impacto catastrófico na vida humana, flora e fauna, não posso falar nada. Aliás julgar ninguém, tampouco a mim mesma.

Empolgada em continuar explorando a área e aprender mais sobre o tema, voltei a plenária para ouvir mais sobre os empreendedores.

Era mais um painel #AllMalePanel e desta vez, o tema foi explorado de forma dinâmica incluindo perspectivas pessoais sobre casamento e até sobre mulheres, em particular as maiores de 50 anos, além obviamente do contexto de finanças e investidores.

O que há em comum entre a forma de definição de beleza de um ser humano e de um “belo investimento”?

Como uma mulher que se tornará 51 daqui a 3 meses – se o destino permitir (!) – foi no mínimo surpreendente ouvir o palestrante justificar a beleza de mulheres nesta idade, graças aos avanços da medicina e da estética. Exercícios físicos, práticas psicológicas e espirituais, alimentação balanceada, noite adequada de sono, relacionamentos ancorados em profunda conexão, trabalho com propósito que gere valor a toda sociedade são os ingredientes que, na minha perspectiva, são essenciais a todos, homens e mulheres, para que envelheçam com qualidade e sejam saudáveis. Isso é minha definição de beleza, que chamo em última instância de saúde.

Alguns definem beleza no âmbito externo, talvez fazendo modelos comparativos com outros ou com padrões do passado, buscando, em vão, retornar a uma época que nunca mais voltará. Uma fase onde a pele era mais lisa, mais macia, sem marcas da vida, onde o metabolismo era mais vigoroso. Uma outra visão é definir beleza como algo que vai além do aspecto externo, mas que o inclui, acolhendo as mudanças naturais da vida e que integra as dimensões internas espirituais, psicológicas além das relacionais. Sim, é possível sentir-se bel@ depois um longo dia de trabalho com propósito ou de uma profunda conexão com amigos e parceiros.

Analogamente, como é então definir um “belo” investimento? Apenas em quanto dinheiro retorna ao meu bolso? Ou no bem que geramos a toda sociedade? E para qual sociedade? Para quem na sociedade? E para qual região, apenas no Brasil? Ou a todo o planeta?

 

Cisne verde, a nova bolha no mercado financeiro. Como a emergência climática impacta os investimentos e vice-versa?

Foto por Federico Bottos disponível em Unsplash

Somente em 2019 foram 820 eventos extremos dentre furacões, queimadas e enchentes, provocando perdas de US$ 150 bilhões.

Iniciamos o ano de 2020 com eventos extremos em inúmeras regiões do planeta, do Brasil a Madagascar, passando por Europa a Austrália, que provocaram mortes e deslocamentos de milhares de pessoas, mostrando claramente que este é o novo normal. Sem falar que a alteração no clima tem favorecido reprodução de certas espécies provocando graves danos aos seres humanos e ecossistemas. Como por exemplo, a praga de gafanhotos onde um surto com cerca de 200 bilhões de insetos colocam em risco a segurança alimentar de dezenas de milhões de pessoas na África.

Por outro lado, vultosos investimentos continuam buscando e priorizando apenas os ganhos de capital financeiro. E  justamente em setores da economia que estão potencializando a crise climática e a destruição de ecossistemas.

E isso também tem um preço.

O preço da desconexão

Um estudo realizado pelo WWF em parceria com centros de universidades, indica que se tendência de degradação ambiental persistir as perdas no PIB global serão de US$ 10 trilhões até 2050. Vale ressaltar o que o estudo é bastante conservador, pois considera apenas 6 serviços ecossistêmicos: polinização, proteção costeira, produção de água, produção florestal, pesca marinha e armazenamento de carbono.

Outro estudo, pelo Instituto Grantham, analisou como o capital natural de uma nação sustenta o valor de seus títulos.  A degradação ambiental poderia resultar em maior custo para obter empréstimos, prejuízos à qualidade do crédito e acesso reduzido a financiamentos.

Mas os impactos são ainda mais profundos. Segundo BIS – Bank for International Settlements (BIS), conhecido como “o banco dos bancos centrais”, podemos ter uma crise financeira sem precedentes, devido a emergência climática. Analogamente ao termo “cisne negro” que se refere a eventos fora da curva e que têm um forte impacto negativo ou até catastrófico, como o ocorrido na crise financeira em 2008, foi cunhado o termo cisne verde para relacionar as questões ambientais e climáticas. Diferentemente de 2008, onde não estavam claras a bolha e a vulnerabilidade do sistema, agora, com as crises ambiental e climática há fartas evidências científicas que mostram o impacto da não-ação.

A pergunta central é: vamos encarar o cenário e agir na velocidade, profundidade e escala que a ciência nos indica necessário?

 

Motivada em buscar respostas para estes desafios, ao final de uma plenária, indaguei aos panelistas: “Como empreendedores no mercado financeiro brasileiro estão alinhando seus investimentos considerando o contexto de emergência climática que estamos vivendo aqui e agora?”.

A resposta, clara, de dois panelistas não me surpreendeu. Muito abertamente, confirmaram que esse alinhamento de propósito e investimentos ainda não existe no Brasil em escala. Se os critérios de sustentabilidade, crise climática, meio ambiente e governança fossem norteadores de investimentos, segundo eles, o portfolio de investimentos seria muito limitado.

Apreciei a franqueza dos dois palestrantes. Mas admito que é difícil ouvir essa verdade e encará-la. Será por isso que minha pergunta foi tão difícil de ser escutada pelo painel?

Vejam vocês próprios. O que acham? Deixo o link de um pequeno vídeo com a intervenção que fiz.

Continue lendo… Parte 3: Como dar forma ao mercado de finanças sustentáveis e sermos sustentáveis

Cristina Mendonça

Master of Science in Urban and Environmental Engineering from Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro (PUC-Rio) and Technical University of Braunschweig, Executive MBA from COPPEAD-UFRJ (Federal University of Rio de Janeiro), specialist in R&D from COPPE-UFRJ, Chemical Engineer from UFRJ, and leadership courses in personal, social and cultural transformation processes.

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