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A Nova Agenda Urbana & Cidades do Amanhã Começam com Indivíduos Conscientes Agora

É possível aumentar a sustentabilidade e qualidade de vida nas cidades, enquanto o número de habitantes ainda está aumentando?

Definitivamente, sim, é possível. Cidades com baixas emissões de carbono, compactas, conectadas e coordenadas constituem o meio mais eficiente e eficaz de acolher o aumento populacional. Cidades desenhadas em escala humana, centradas nas relações e convivência em comunidades, onde infraestrutura verde está integralmente incorporada, impulsionam a eficiência de recursos, facilitam a inovação e promovem vibrantes espaços urbanos.

Talvez, você se pergunte como as cidades podem aumentar sua sustentabilidade se é esperada que a população urbana mundial praticamente dobre até 2050, representando quase 70% da população global projetada de 9,5 bilhões? Como os recursos serão fornecidos? Atualmente, 7,3 bilhões de pessoas já estão ultrapassando nossos limites planetários; além disso, as mudanças climáticas e a integridade da bioesfera (esgotamento de recursos naturais) estão colocando em risco os Sistemas Terrestres e o desenvolvimento humano. Quando levamos em conta a lacuna em nossas fronteiras sociais, onde 1,1 bilhões de pessoas sequer têm acesso a eletricidade, apenas para dar um exemplo, a pergunta acima parece insolúvel.

Mas realmente foi o aumento da população (principalmente a população urbana) que nos levou a esta encruzilhada? Estamos verdadeiramente enfrentando um problema de escassez? A resposta é não.

Convido você a examinar estes desafios de um ponto de vista diferente, a partir de evidências do setor de alimentos – um sistema complexo, que compreende dimensões individuais, sociais, culturais, econômicas, ambientais e políticas.

Aproximadamente 24% dos alimentos produzidos para o consumo humano (expresso em calorias) são perdidos ou desperdiçados globalmente no caminho da fazenda para a mesa.  Mesmo depois de contabilizar esta enorme perda, ao nível global agregado, o suprimento alimentar em termos de calorias fornecidas per capita ainda é adequado. Na última década, o número de calorias produzido para nosso consumo de fato aumentou mais de 40%, enquanto a população global aumentou somente 28%. Apesar disso, a subnutrição ainda é uma realidade para 800 milhões de pessoas. Por outro lado, em 2014, mais de 1,9 bilhões de adultos estavam em situação de sobrepeso. Destes, mais de 600 milhões estavam obesos. O sobrepeso e a obesidade matam mais pessoas do que estar abaixo do peso.

Nosso sistema alimentar global também tem gerado severos impactos ambientais, diretamente relacionados aos nossos próprios hábitos alimentares. Pesquisas indicam que o consumo dos lares contribui com mais de 60% das emissões globais dos gases de efeito estufa (GEE), e com cerca de 50% a 80% do uso total da terra, dos materiais e da água. E os alimentos, em particular, o consumo de produtos animais, constituem um dos maiores impactos.

Esse desequilíbrio nos números nos mostra que o desafio básico, o que está por trás, não é um desafio relacionado a escassez de recursos ou ao crescimento populacional, mas sim um “problema de materiais no lugar errado”, uma questão de conscientização humana e de como nós operamos. Um desafio relacionado a nossa capacidade de reconhecer que nossos padrões de consumo “privados”, não são assuntos “privados”, mas acabam sendo uma questão “pública”. É a nossa visão de mundo que limita nosso senso de interconexão entre cada um de nós e com o nosso planeta.

Este é o alicerce para promover uma “mudança profunda do paradigma urbano, fundamentado nas dimensões integradas e indivisíveis do desenvolvimento sustentável: sociais, econômicas e ambientais”, que constituem o principal compromisso declarado na Nova Agenda Urbana, adotada no dia 20 de outubro por Estados-membros da ONU em Quito durante o HABITAT III, Terceira Conferência das Nações Unidas sobre Moradia e Desenvolvimento Urbano Sustentável.

A consolidação desse caminho vai exigir que cada um de nós, individual e coletivamente, utilize nosso pleno potencial de um modo radicalmente transformador. Prefeitos e lideranças das cidades estão nos estágios iniciais de co-criação e formação desse novo caminho, em colaboração com cidadãos, com outros governos, com o setor privado, bancos, sociedade civil, universidades e outras partes interessadas. Os prefeitos do Grupo C40 de Grandes Cidades para a Liderança Climática já começaram a transformar suas cidades.

A cidade de Los Angeles, pioneira na implantação em grande escala de retrofit de iluminação pública com LED, concedeu uma significativa porção da economia em eletricidade ao selecionar a luminária LED, para incorporar o pedido de cidadãos que reclamaram de desconforto com a melhor solução econômica (intensa luz azulada) – uma decisão de abordar as preferências dos cidadãos que acabou também constituindo a melhor opção para a saúde deles. Neste ano, quatro anos depois da adoção das primeiras luminárias com tecnologia, a comunidade médica científica americana identificou que a qualidade espectral da luz azulada, inicialmente oferecida pelos fornecedores de LED, poderia ter possíveis efeitos colaterais adversos sobre a saúde. A solução revisada que foi adotada reduziu substancialmente a poluição da iluminação e as emissões de gases de efeito estufa (GEE).

A cidade de Bogotá está na vanguarda de um movimento para adotar ônibus de baixas emissões (híbridos e totalmente elétricos) para melhorar a qualidade do ar. Por sua vez, essa melhoria poderá oferecer significativos benefícios para a saúde da população, incluindo o aumento na expectativa de vida. A cidade de Buenos Aires conseguiu reduzir, com sucesso, a quantidade de resíduos sólidos que vão para os aterros, ao mesmo tempo reduzindo os custos operacionais, as emissões e gerando empregos. Resíduos sólidos podem ser vistos como “nutrientes”, como um recurso para outro ciclo produtivo, base de uma nova economia circular.

E mesmo em áreas onde os prefeitos não têm grande força política, como sistemas alimentares e consumo individual, através de fortalecimento de parcerias com diferentes stakeholders, as cidades do C40 estão tomando medidas e estabelecendo sua visão em direção a esta nova mudança de paradigma urbano. Por exemplo, Milão, com o engajamento e a mobilização de outras 129 cidades globais, está promovendo sistemas alimentares sustentáveis que são inclusivos, resistentes, seguros e diversificados.

Londres, Paris e Portland constituem outros excelentes exemplos de iniciativas de vanguarda ao avaliarem as emissões baseadas em consumo – emissões que ocorrem devido às atividades de consumo dos habitantes – incluindo todas as emissões associadas à produção de bens e serviços em toda a cadeia de suprimentos. Com essa avaliação, as cidades podem identificar oportunidades para tornar as cadeias de suprimento urbanas mais eficientes e estão em melhor posição de engajar os cidadãos na melhoria do seu comportamento sustentável. Em Londres, por exemplo, o setor residencial doméstico representa 75% das emissões de GEE da cidade.

Ao confirmarem que não existe situação conflitante entre a ação climática e o desenvolvimento social e econômico, as cidades da C40 demonstram sua capacidade de aumentar a sustentabilidade e a qualidade de vida para um maior número de residentes urbanos e ao mesmo tempo implantando a Nova Agenda Urbana. Esta proposta orientada por ações para impulsionar o desenvolvimento urbano sustentável em linha com os ODSs (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) e o Acordo de Paris firmado na COP 21 constitui um claro reconhecimento dos países quanto ao papel das cidades para colocar o mundo em um caminho inclusivo, sustentável e seguro.

 

Referências

[1] NCE – New Climate Economy. Better growth, better climate. Chapter 2 – Cities: Engines of national and global growth. Available at http://newclimateeconomy.report/2014/. 2014

[2] United Nations (UN) – Department of Economic and Social Affairs. Population Division (File 2). World Urbanization Prospects (2014). Available at https://esa.un.org/unpd/wup/CD-ROM/.

[3] United Nations (UN) – Department of Economic and Social Affairs. Population Division (File 5). World Urbanization Prospects (2014). Available at https://esa.un.org/unpd/wup/CD-ROM/.

[4] United Nations (UN) – Department of Economic and Social Affairs. Population Division (File 5). World Urbanization Prospects (2014). Available at https://esa.un.org/unpd/wup/CD-ROM/.

[5] STEFFEN, W. RICHARDSON, K; ROCKSTRÖM. J; CORNELL, S; FETZER, I; BENNETT E. M.; BIGGS, R.; CARPENTER, S. R.; VRIES, W.; WIT, C. A.; FOLKE, Carl; GERTEN, D.; HEINKE, J.; MACE, G. M.; PERSSON, L. M; RAMANATHAN, V., REYERS B., SÖRLIN S.. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. In: Science. Vol 347, Issue 6223 (Feb 2015). Available at http://science.sciencemag.org/content/347/6223/1259855.full.pdf+html.

[6] IEA – International Energy Agency, WB – World Bank. Sustainable Energy For All Initiative – Global Tracking Framework 2015 – Summary Report. May 18, 2015. Available at  http://bit.ly/1ed1WR6.

[7] LIPINSK, B.; HANSON, C; LOMAX, J; KITINOJA, C; WAITE, R; SEARCHINGER, T.  Reducing Food Loss and Waste. Working Paper, Installment 2 of Creating a Sustainable Food Future. Washington, DC: World Resources Institute. Available at http://www.wri.org/sites/default/files/reducing_food_loss_and_waste.pdf

[8] The information was calculated based on information available at FAOSTAT on line database (2011 – 1992). Food supply accessed at http://faostat3.fao.org/browse/FB/FBS/Eand total population accessed at http://faostat3.fao.org/browse/O/*/E.

[9] FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations (2015). The State of Food Insecurity in the World. Available at http://www.fao.org/3/a-i4646e.pdf.

[10] WHO – World Health Organization. Obesity and overweight. Fact Sheet (Jun 2016). Available at http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs311/en/.

[11] IVANOVA, D; STADLER, K.; STEEN-OLSEN,K.; WOOD, R; VITA, G; TUKKER, A.; HERTWICH, E. G. Environmental Impact Assessment of Household Consumption. Journal of Industrial Ecology 20(3). December 2015. Available at https://www.researchgate.net/publication/289373031_Environmental_Impact_Assessment_of_Household_Consumption

[12] UNEP (2010) Assessing the Environmental Impacts of Consumption and Production: Priority Products and Materials, A Report of the Working Group on the Environmental Impacts of Products and Materials to the International Panel for Sustainable Resource Management. Hertwich, E., van der Voet, E., Suh, S., Tukker, A., Huijbregts M., Kazmierczyk, P., Lenzen, M., McNeely, J., Moriguchi, Y. Available at http://www.unep.org/resourcepanel/portals/24102/pdfs/priorityproductsandmaterials_report.pdf.

[13] Paraphrasing William McDonough and Michael Brungart in “Upcycle. Beyond Sustainability – designing for abundance”. Page 211. Melcher Media. New York, NY, USA. (2013).

[14] Habitat III – United Nations Conference on Housing and Sustainable Urban Development (Oct 2016). New Urban Agenda. Page 5. Available at https://www2.habitat3.org/bitcache/97ced11dcecef85d41f74043195e5472836f6291?vid=588897&disposition=inline&op=view

[15] BSL – Bureau of Street Lighting, City of Los Angeles (2009). LED Equipment Evaluation  Pilot Project – Phase I. Page 33. Available at http://bsl.lacity.org/downloads/led/municipalities-utilities/LED_evaluation_report_phase_1.pdf

[16] American Medical Association – AMA (2016). Human and Environmental Effects of Light Emitting Diode (LED) Community Lighting. Available at http://darksky.org/wp-content/uploads/bsk-pdf-manager/AMA_Report_2016_60.pdf

[17] BSI – British Standards Institutions (2014). Application of PAS 2070 –London, United Kingdom. An assessment of greenhouse gas emissions of a city. (page 12). Available at http://shop.bsigroup.com/upload/PAS2070_case_study_bookmarked.pdf

 

 

Este post foi originalmente publicado em português em 31 de outubro de 2016 para o Museu do Amanhã. 

Mestre em Ciências em Engenharia Urbana e Ambiental pela PUC-Rio e Universidade Técnica de Braunschweig, MBA Executivo na COPPEAD-UFRJ, especialista em P&D pela COPPE-UFRJ, Engenheira Química pela UFRJ, além de cursos de liderança em processos de transformação pessoal, social e cultural.

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